Criatura e Criador

 

Para nos tornarmos ‘criaturas’, nós, seres humanos, necessitamos ‘matar’ simbolicamente nossos ‘criadores’.

Arquetipicamente é assim, e na mitologia isso é bem explicado quando Urano é castrado pelo próprio filho Cronos, e Cronos bem mais tarde é destronado pelo seu filho Zeus. A passagem do velho para o novo é absolutamente natural e inevitável; é a renovação que em tudo está contida. 

Vemos isso nas crianças que começam a testar os pais para poderem definir seus próprios limites, nos adolescentes que dizem que a família está toda errada, que o governo e o mundo precisam mudar à partir do ponto de vista deles, etc. Na adolescência queremos ‘ser’ como determinado artista, ou ‘ter’ determinado cabelo, roupa e até mesmo família! Enfim, é desse jeito meio imaturo, e fundamental, que acontece. Tudo muito natural, o crescimento se dá assim, o ‘jovem’ desconstrói o ‘velho’ para poder se apropriar de suas próprias capacidades e talentos.

Mas hoje quero escrever sobre um modelo de comportamento ‘adulto’ que é bastante comum – e não necessariamente saudável ou honesto – mas que acontece quando alguns de nós sentimos que precisamos crescer, nos desenvolvermos, mas nos atrapalhamos ao fazer essa transição. 

Bem no início desse processo, antes de estarmos apropriados daquilo que somos, de nossas capacidades – sim, adultos têm muitas incertezas -, nós escolhemos modelos, referências…pessoas parecidas com aquilo que queremos ter ou ser. Esse adolescente interno que vive em nós se deslumbra com as possibilidades daquilo e cria meios de buscá-lo, de se tornar o que a pessoa/referência é. Esse adolescente/adulto sonha em viver sua referência, quer muito, se projeta naquele outro que é/tem/parece/inspira/representa todas as coisas que ele quer ser.

Depois que vivencia um pouco, experimenta o que quer, ‘toma o gostinho’ daquilo que pode desenvolver, é que pode acontecer o desajuste no processo de transição!

As críticas aumentam e começa uma etapa, mesmo que inconsciente, de desqualificar, questionar e desconstruir àqueles que foram suas referências e ‘criadores’. Dificilmente encontramos os que conseguem elaborar bem esse momento e que crescem sem precisar machucar o outro.

Honrar um ancestral/criador não é só contar sua linhagem e sua origem. Honrar um ancestral é ser honesto, não esconder, nem mentir, nem omitir suas atitudes. É encarar a vida sem auto-enganos. É ‘fazer bonito’ para que o ‘criador’ ou ‘ancestral’ se mantenha honrado naquilo que ele ensinou. O criador nunca tem medo da criatura, não compete com a criatura, mas a criatura tem medo e, às vezes, tem culpa, pelo modo como fez o processo de transição.

Mantenha-se fiel as suas origens e aos ensinamentos daquele criador que um dia foi tudo aquilo que você queria, e ainda não podia, ser. Liberte-se! Honre verdadeiramente seus ancestrais.

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